sábado, 14 de maio de 2011

Relíquias 2

Relíquias 2


Já foi bom ter conseguido mostrar três fotos no  "Relíquias 1", por isso não insisti em inserir mais com medo de estragar tudo, sim porque, para conseguir levar as fotos para o sítio certo, ainda me fez "suar as estopinhas" e até, de uma vez, quase perder tudo o que já tinha feito... ainda sou (e se calhar nem vou deixar de ser), muito "naba" nestas coisas...
Para evitar sobressaltos, vou indo até onde me sinto segura e então criei este "Relíquias_2 ( e talvez ainda o 3, 4...) para inserir mais antiguidades fotográficas e discorrer sobre elas.
Aqui vai esta:



1973 (?) - Alameda
De facto, esta é a única foto que a minha amiga se esqueceu de datar e situar, mas, situá-la, é fácil, não se esquece o nosso relvado da Alameda assim tão depressa...

Depois de várias conjecturas, cheguei à conclusão que pode ser de 1973: a Aida parece ainda não estar grávida da sua Clarinha, como já era evidente na foto de 1974, o meu cabelo estava ainda bem pior também, mais comprido, assim como o da Maria. A única que parece na mesma, é a Mariazinha.

Mas há mais colegas nesta foto, que gosto de relembrar: a Clementina, tão divertida e amiga, de quem, lamentavelmente, não voltei a saber mais nada, a Lubélia, de quem fui bastante amiga, mas assinalo o fui, porque as voltas que o mundo dá nos levam a desilusões com algumas pessoas e elas a desiludirem-se connosco, então, quando isso acontece, da amizade resta só a lembrança; não voltei a vê-la. Mas há ainda as manas, as queridas manas, Miraldina e Alice, que também nunca mais vi mas sobre quem por vezes ia sabendo algo. Mudaram-se para Évora e, durante anos e anos, o pouco que fui sabendo foi através da Mariazinha. Há uns dois ou três anitos para cá, já nem sei bem se por iniciativa da Miraldina ou minha, começámos a contactar-nos pelo telefone. Da Alice, sempre soubemos que se foi daqui para casar com o seu amado Quim Zé, de que tanto falava e por quem tanto chorava, se alguma carta, lá do ultramar, não chegava no tempo previsto. À Miraldina, sucedeu o mesmo que a algumas de nós, ou seja, ficou para tia.

Passados todos estes anos, casadas ou solteiras, atingimos porém o mesmo estatuto, o de aposentadas. Refiro-me, claro, às amigas com quem contacto, mas a avaliar pela idade, o mesmo se deve passar com as outras. Assim, umas tratam agora dos netos, outras dos pais e mães velhotes, ou dos sobrinhos e sobrinhos-netos.

Termino o "Relíquias_2",com duas fotos de 1974.

10-11-1974 -Cascais

Como se pode observar, o céu estava límpido, por isso, apesar do Outono, o tempo ainda devia estar bem ameno para permitir bons passeios à beira-mar.
Creio ter sido eu a fotógrafa da primeira foto porque, na foto abaixo, embora quase despercebida, sou eu que estou lá. Mas também pode ter sido a Alice a fotografar, uma vez que, nessa foto, ela não figura. Na época, eu morava na Parede, portanto é bem possível que as minhas amigas tenham ido ter comigo primeiro e depois seguimos de combóio para Cascais, ou então foi mesmo na estação de Cascais que nos encontrámos todas. Ou será que a Miraldina já tinha o mini e foi com ela que fomos?

Corrijo depois, se por acaso alguma das amigas souber esclarecer este ponto.





sábado, 7 de maio de 2011

Relíquias 1

Relíquias 1

Continuo quase sem divulgar este meu blogue, posso mesmo adiantar que apenas uma meia dúzia de pessoas têm conhecimento dele, que apenas uma leu alguma coisa e uma outra somente leu os títulos. Foi precisamente essa, a que só leu os títulos, que, há umas semanas, comentou, com toda a franqueza, que não percebia porque é que eu me dava ao trabalho de escrever aquilo e perguntou-me mesmo se achava que alguém se interessaria por aqueles meus escritos. Confesso que fiquei um tanto chocada, mas respondi-lhe que era a mim que interessavam aqueles escritos, que gostava de escrever sobre alguma coisa do que ainda me lembrava.


Mas, desde então, tenho pensado bastante no que ela me disse: de facto, para quê?
Entretanto, uma outra das amigas, daquelas que só têm conhecimento da existência do blogue, veio visitar-me e trouxe-me algumas relíquias fotográficas dos nossos tempos de juventude trabalhadora. Fiquei espantada porque não me lembrava nada daquelas fotos e, pior ainda, muito pouco dos momentos que retratam. Felizmente, ela teve o cuidado de datá-las e situá-las e assim, embora alguns dos locais sejam evidentes, ajudaram-me a reavivar memórias.
Então pensei na resposta que dei à amiga que não encontrou qualquer interesse no que eu para aqui escrevia e decidi que, enquanto acreditar nisso, os meus escritos vão continuar e estas fotos reforçaram a minha decisão. Escolhi esta para primeira, embora tenha outras anteriores.




Agosto de 1974 - Alameda D. Afonso Henriques
Estávamos no ano da Revolução, ainda tão fresca e promissora, e muito felizes por trabalharmos ali, na Caixa do Comércio, tão próximo do Instituto Superior Técnico, um dos focos revolucionários. À excepção de uma, as colegas que estão comigo na foto, continuam a ser algumas das minhas queridas amigas. As quatro que estamos juntas, também trabalhávamos juntas, quer dizer, na mesma secção; a que está mais desgarrada pertencia a outro serviço mas era uma rapariga muito sociável e muito bem disposta, às vezes um bocado desbocada, mas não se lhe levava a mal. Convivemos mais quando se juntou a mim e a outra das retratadas (igualmente sociável e bem humorada), como trabalhadora-estudante. Até agora ainda não me esqueci das nossas hilariantes viagens no 2.º andar dos verdes da Carris, para o Liceu D.Dinis, onde iniciámos os então denominados complementares (em aulas nocturnas), melhor dizendo, o antigo 6.º ano liceal. Também me recordo bem de algumas peripécias que passámos quando regressávamos, perto da meia-noite, a casa... de uma vez em que chovia torrencialmente, o nosso professor de História (Dr. Barbosa ?),como já antes fizera, ofereceu-nos boleia até ao Areeiro e, a partir dali, foi essa colega que tratou de arranjar uma outra boleia com o primeiro carro que apareceu, um mini vermelho, conduzido por um rapaz que se prontificou logo a levar-nos. Fiquei com os cabelos em pé, cheia de receios, mas "embarquei" com elas na aventura porque estávamos a ficar encharcadas e, autocarros, nem vê-los! Para azar meu, fui a última a deixar o carro, no Cais do Sodré (que óptimo local, não é?), onde tinha de apanhar o combóio para a linha de Cascais. Mas o dito rapaz não queria deixar-me por ali, queria conversa, que naquela altura ainda não havia muitos maiores atrevimentos. Mas insisti que tinha o meu irmão à espera no combóio, agradeci bastante e lá me vi livre dele. Devo acrescentar que foi só nessa altura que ele ouviu o tom da minha voz, porque durante todo o tempo que estivemos no carro, as minhas duas colegas é que fizeram a "despesa" da conversa, foi ele mesmo que me fez esse reparo. Eu era, de facto, demasiado tímida e temerosa.
Recuo agora a 1972.


10-12-1972 - Castelo de Leiria
Ia no meu terceiro ano de trabalho naquela Instituição de Previdência, as amizades eram ainda recentes mas algumas, como já referi, perduram até hoje.


Não consigo recordar pormenores mas esta ida a Leiria fez parte de um passeio que alguém organizou e que nos levou também a Coimbra, Conimbriga, Batalha e Tomar, durante, talvez, um fim-de-semana. Era um grupo grande, não só constituído por colegas de trabalho mas também por amizades e familiares de alguns. Tenho mais fotos desse passeio, se conseguir passá-las para aqui, ficarei satisfeita. Escolhi esta porque, desde essa altura, não me lembro de ter voltado a Leiria. Parece incrível, mas é verdade, talvez tenha já passado por lá, mas não permanecido. Por isso não me lembro quase nada da cidade nem do Castelo.


Curiosamente, a amiga que me trouxe as fotos, decidiu mudar-se para Leiria, depois de muitos, muitos anos a viver em Lisboa e arredores. A foto não está muito nítida, aliás como quase todas, mas dá para ver quem está. Uma das colegas, infelizmente, já nos deixou, e duas outras não faço ideia por onde andam.

10-12-1972 - Conimbriga
Sempre consegui inserir mais esta, aos poucos vou descobrindo a melhor forma de lidar com isto.


Aqui estamos nós, o núcleo de amigas que tem envelhecido ao mesmo tempo sem se ter perdido muito de vista, ou antes, sem ter perdido contacto, porque vermo-nos não é muito frequente, a não ser no caso da amiga do lado esquerdo, a tal que se mudou para Leiria, mas que ainda aparece por cá de vez em quando.


De Conimbriga, também não retive nessa altura, grande coisa. Fiquei a saber que se tratava de um local de vestígios de uma cidade romana, como havia outros na Península Ibérica, mas não me lembro de ter dado a devida importância àquele, mais ou menos, amontoado de pedras, ainda mal explorado e estudado. Na altura, não fazia ideia de que viria a interessar-me, e muito, por tudo o que dissesse respeito ao nosso património histórico e à História, e orientasse, nesse sentido, as minhas escolhas para o futuro.


Durante a realização da minha licenciatura (de 1976 a 1981) e depois já no exercício da minha actividade docente voltei lá, claro, como não podia deixar de ser para uma pessoa que tinha optado pelo estudo da História e o seu ensino, e então fui vendo tudo com outros olhos. Também levei lá os meus alunos e procurei que vissem o que eu não vi da primeira vez que lá fui e já bem mais velha do que eles. Resta-me a esperança de que algum desses alunos se tenha interessado por aquele património, quanto mais não seja, pela sua preservação.
Dou-me conta de que tenho estado a evitar escrever os nomes das minhas colegas e amigas. Quando iniciei o blogue, não me preocupei nada com isso e mencionei os nomes e apelidos das pessoas que estavam nas fotos ou que se relacionavam com alguma situação. Mais tarde, alguém me chamou à atenção que um blogue, mesmo que só o divulguemos a quem queremos, é sempre acessível a quem navega neste mundo virtual. Acabei por constatar isso mesmo quando, para minha surpresa, uma amiga a quem nunca tinha falado do blogue, me comunicou que o tinha visto, ou antes, o filho dela é que o tinha descoberto e lho tinha mostrado.


Depois disso, revi alguns dos textos e retirei os apelidos, noutros casos fiz o que fiz agora, escrevi sem mencionar nome algum. Mas não gosto, parece que falta alguma coisa. Bem, acho que vou fazer assim: as amigas de que mais falei hoje aqui e estão nas fotos, são a Maria, a Mariazinha e a Aida. Pronto, já me sinto melhor!









































































































































































































domingo, 6 de março de 2011

Outros Carnavais...

Outros Carnavais...Esta foto foi tirada no último Carnaval que passei na minha cidade natal e, sendo assim, data de Fevereiro de 1969.


Nunca tinha ido a um baile de Carnaval porque, enquanto fui estudante, esta quadra era, invariavelmente, passada em casa. Neste ano, porém, eu já entrara no mundo do trabalho, fizera novos conhecimentos e, enfim, já me sentia adulta nos meus 19 anos. Foi uma amiga recente, que era irmã de uma moça que veio a ser minha tia, quem me incentivou a ir a este baile.

O dito baile foi no Grémio, onde só me lembro de ter ido quando era muito criança, pela mão do meu pai, que era sócio. Depois nunca mais lá voltara. Esta ida ao baile de Carnaval do Grémio, o mais badalado da cidade, não deixou por isso de ser um acontecimento.

Conforme se pode facilmente verificar pela atitude de quem está retratado (eu incluída, claro), era daqueles bailes à antiga, em que as raparigas se sentam em volta da sala, à espera de quem as venha convidar para dançar. As mães, irmãs mais velhas ou outros adultos confiáveis, cumpriam o seu papel de discreta vigilância. Os rapazes e homens, amontoavam-se um bocado noutro canto da sala e iam dando umas miradas para ver quem iriam convidar a seguir; alguns dispunham-se estrategicamente em lugar mais avançado, não fosse outro qualquer buscar a escolhida. As raparigas observavam todas estas manobras aos risinhos e segredinhos umas com as outras. Quando não agradava a alguma aquele que já se dirigia na sua direcção, levantava-se repentinamente em direcção aos lavabos ou então fingia-se desentendida olhando por cima do ombro do candidato a rejeitado dando-lhe a entender que, atrás, havia outro com quem já se tinha comprometido. Outra situação, era aquela em que o par tendo-se entendido bem nos passos de dança e, claro está, fazendo gosto na companhia mútua, dava-se a conhecer a outros candidatos que já se tinha compromisso até final do baile.

Foi mais ou menos isto o que me sucedeu neste baile. Para minha grande surpresa, um colega de trabalho, com quem nunca trocara sequer duas palavras no serviço (além do bom dia, boa tarde), de quem desconhecia tudo, incluindo o nome, veio convidar-me para dançar. Penso que nem tive tempo de raciocionar, quanto mais balbuciar alguma coisa e, de repente, vi-me nos braços desse colega que, com toda a gentileza, me conduzia pelo salão. Acho que tropecei muito, desacertei outro tanto, mas a certa altura o rapaz, vendo a minha atrapalhação, achou por bem encetar uma conversa qualquer que me fez sentir mais à vontade e deu para terminar aquela modinha, já mais segura dos passos que dava. Mas, senti-me profundamente aliviada quando retornei ao meu lugar e as minhas faces começaram a arrefecer. Porém, durou pouco o meu descanso porque o rapaz ali estava de novo a solicitar-me, mal a música seguinte começou. A partir dali e, até às quatro ou cinco da manhã, não dancei com mais ninguém e por várias vezes, entre uma música e outra, nem sequer me fui sentar no meu lugar porque, não só a dança como a conversa, nos envolveram de forma total.

Pior mesmo foi voltar ao trabalho e deparar-me com aquela pessoa.
Que o dito colega me tinha impressionado, disso não tinha dúvidas, mas enfrentá-lo a partir dali é que me fazia tremer as pernas. Como eu temia, o rapaz mostrava-se agora cheio de atenções para comigo o que logo fez arquear as sobrancelhas das minhas colegas. Elas não tinham estado no baile mas logo houve quem as informasse do que se passara no Grémio. Não tardou muito que uma delas me avisasse que o rapaz era comprometido, de casamento marcado até, e que era melhor eu esclarecer tudo para não criar ilusões. Descansei-a dizendo-lhe que por mim tudo se resumira a um baile que tanto para mim como para ele, correra bem. Não ia alimentar coisa alguma porque não era essa a minha vontade e, certamente, também não seria a dele. No que me toca, era verdade, mas não sei o que lhe passou a ele pela cabeça porque durante os meses seguintes não deixou de me cortejar. Quando chegou a Páscoa e por mero acaso, veio a ser meu compadre (no jogo dos bilhetinhos ) e logo se apressou a presentear-me com as amêndoas. Quando chegaram as festas dos santos populares e dos bailaricos de rua, ainda me arrastou para um deles. A forma que encontrei ser a melhor para lhe dar a entender que não estava interessada fosse no que fosse, foi tornar-me "tão pesada" na dança que ele acabou por me dizer que lhe parecia que eu estava a fazer de propósito ou já não era a mesma pessoa. - De facto, uma dessas coisas era verdade, ou se calhar até as duas - respondi-lhe.

Entretanto, chegou o bendito mês de Julho e eu deixei aquele trabalho quase de repente e rumei a Lisboa.

Só para terminar, acrescento duas coisas:

1.ª - Não faço ideia do rumo que levaram as vidas das pessoas que estão comigo na foto, só me lembro do nome de duas, sendo que, uma delas, vivia na minha casa e chegou a ser uma grande amiga. Mas o tempo passa e tudo muda.

2.ª - A história deste baile de carnaval, ainda hoje me faz sorrir, mas as histórias dos outros carnavais que passei em casa, em que também houve bailaricos na cozinha, já não têm em mim esse efeito. Pelo contrário, trazem-me lembranças que ainda agora me magoam.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O meu Presépio


O meu Presépio







Presépio de 1949

De facto, este Presépio já tem mais de 65 anos. Tinha eu 4 meses de idade quando me foi oferecido pelos meus padrinhos que, vivendo no Brasil, estavam de visita à família naquele ano.
Penso que não terá passado um só ano em que o Presépio não tenha sido armado e, várias vezes, em casas diferentes. Que eu saiba, pelo menos em meia dúzia delas, sendo que, nos últimos vinte e tal anos, tenha por morada a casa do meu irmão, na Parede. Isto porque, sendo a minha sobrinha a única criança da minha família mais próxima, era natural que assim passasse a ser.
As maiores recordações que tenho do Presépio vêm da penúltima casa em que vivi, na minha terra. Ao contrário das outras casas, em que, provavelmente, nem sempre foi montado no mesmo sítio, naquela casa e durante os anos em que lá vivemos, o sítio do Presépio foi sempre o mesmo, ou seja, num recanto do espaçoso e comprido corredor que fazia a ligação entre uma espécie de "duas casas" e que por isso tinha várias divisões (quartos/salas), duas cozinhas e duas entradas para o mesmo quintal, que assentava na muralha da cidade.
Naquela época, a preparação para a montagem do Presépio, levava o seu tempo e por vezes surgiam dificuldades. O pinheiro era um pinheiro natural e demorava por vezes a encontrar, nas redondezas, um que fosse viçoso e do tamanho ideal (eu vivia numa cidade...). Dessa tarefa era mais o meu pai que se incumbia, mas dos musgos, éramos nós, eu e o meu irmão e também a garotada da vizinhança, que tratávamos. E arranjá-los, não era "pera-doce"; não porque faltassem, mas porque, em anos de muita neve, ficavam escondidos por baixo e era o cabo dos trabalhos conseguir chegar-lhes.

Eu vivia próximo de uma das saídas da cidade, portanto havia terrenos baldios mesmo ali, como a Reinalda e o Torreão, de que já tive oportunidade de falar noutra mensagem deste blogue. Bastava sair de casa e não precisavamos de nos afastar muito para, naqueles muros dos últimos quintais e nos barrocos desses baldios, encontrarmos o que precisávamos. Levávamos um cesto de verga, uma pá de ferro daquelas das braseiras e umas facas, e devotávamo-nos à tarefa de retirar a neve, escarafunchar e, com muito jeito, cortar os pedaços de musgo do maior tamanho possível. Enchíamos o cesto e lá íamos para casa, onde subíamos as escadas a correr para dispor os musgos no espaço já delimitado por jornais ou mantas velhas e voltávamos rapidamente à rua para trazer mais enquanto a neve ou o gelo não voltassem a cobrir o terreno desbravado.

O frio parecia golpear-nos o rosto e os dedos, mesmo enluvados, mas depois de um bocado de actividade, até já sentíamos calor e íamos tirando as luvas e os gorros.
Com o musgo todo colocado, restava armar uma cabana por baixo do pinheiro e para isso nós tínhamos o objecto ideal, que era a tacoila (joelheira) em madeira, que servia para, quando lavávamos o soallho, nos ajoelharmos dentro e assim não nos molharmos. Ora esse objecto servia na perfeição, desde que bem coberto e forrado com musgo. Depois estendíamos uma prata, que se moldava em curva para, por cima, colocar a pequena ponte de barro e assim imitar um ribeiro. Também não faltavam, a enfeitar, umas pedrinhas do rio, que havíamos trazido do rio Mondego quando, nas suas margens, fazíamos piqueniques, no Verão. As figuras eram dispostas de acordo com o estatuto que tinham e também, claro está, com a forma que nos parecesse mais bonita e sempre de maneira que diferenciasse o Presépio de um ano para o outro. Para imitar os caminhos, colocávamos uns carreiros de serradura, que o meu irmão ia buscar à serração. O Pinheiro, tinha invaravelmente muito algodão em rama espalhado pelas suas agulhas verdes para imitar os fiapos de neve, umas bolinhas coloridas que se compravam, outras feitas de pratas coloridas e, às vezes, as próprias pinhas ainda pequenas e verdes também. Estrategicamente, fazia-se pender uma Estrela prateada no alto do pinheiro e, por cima da canana, lá figurava o Anjo. Também não faltava alguma iluminação eléctrica, e aí era também o meu pai que se encarregava de fazer umas ligações de modo a termos uma lâmpada a incidir na Estrela, o resto era a poder de velinhas pequenas, vermelhas, que espetávamos no musgo, em redor da Sagrada Família. Não sei se terá sido o último Presépio que se montou naquela casa, mas tenho uma vaga ideia de que sim, porque no ano seguinte já nos tínhamos mudado para última casa onde morei na cidade, que era a casa onde tinham morado os meus avós paternos.

A lembrança que tenho é que, naquele ano (talvez 1959 ?) e naquela casa, montei o Presépio a chorar, a chorar de dor, porque estava doente. Não conseguia nem sequer sentar-me, porque me tinham aparecido uns furúnculos nas pernas e um, particularmente doloroso, numa das nádegas. Era comum, naquela época, as pessoas terem furúnculos, não faço ideia a que é que isso se devia, só sei que nunca mais me lembro de ter tido depois e, com os anos, parece que cairam em "desuso".

Esse Natal foi triste para mim porque me sentia muito mal, mas quase todos os Natais da minha infância e adolescência foram pouco alegres também, mas por outras razões que não vêm agora a propósito mencionar.

O Presépio sofreu, ao longo do tempo, alguns pequenos danos, como por exemplo a perna quebrada do Menino Jesus; a este episódio está associada a teimosia do meu irmão e minha também, em querermos ambos pegar nele para o depositar na sua "caminha" de palha. Como ainda agora, o Menino Jesus não fazia parte do Presépio logo que este era montado, aguardava-se a noite de Natal para o colocar lá e também, claro, umas meias penduradas no pinheiro, para os presentes.
Os presentes! De que é que constavam os aguardados presentes? Livros, jogos, brinquedos?

Nada disso. Os presentes eram as camisolas interiores e as meias, luvas e casacos de malha, tricotados pela avó. Mas havia, invariavelmente, umas outras prendas que eram, afinal, aquelas por que mais ansiavámos: os lápis com pratas de várias cores, os ratinhos, os sininhos e outras miniaturas, tudo em chocolate.
Uma maravilha!

Mais tarde, pelo que me lembro, também começámos a receber uns brinquedos ou objectos úteis e vistosos, como uma pasta para a Escola. Esses brinquedos, não eram qualquer coisa, eram de facto únicos, ou seja, na vizinhança ninguém tinha igual. Recebíamos essas prendas do Banco Espítrito Santo, onde o meu pai era funcionário. Mas depressa acabaram essas ricas prendas porque, entretanto, crescemos e deixámos de ter direito. Perdeu-se tudo? Não, a mim, ainda me resta o boneco, tipo bébé-chorão, que trazia biberon e tudo e abria e fechava uns lindos olhos azuis... como os da imagem do nosso Menino Jesus.


sábado, 23 de outubro de 2010

Novembro de 1983


Novembro de 1983


Afinal, "havia outras"!
Como estas, por exemplo.
Quando escrevi aqui a propósito de uma foto de 1976, estava convencida de que teria perdido o rasto a outras do período em que trabalhei na ex- Caixa do Comércio.
Foi o acaso que me trouxe estas às mãos. E não só estas, também umas de Novembro de 1982 mas que, por estarem em pior estado e reproduzirem o mesmo evento e mostrarem mais ou menos as mesmas pessoas, optei por não incluí-las também.
Penso que estão aqui muitas das que eram minhas colegas, no ano de 1983. Um ano em que eu praticamente já não pertencia à Instituição porque começara a leccionar no ano anterior, embora ainda provisoriamente. Para isso, recorri a licenças sem vencimento e, nos intervalos, (férias lectivas ou compasso de espera pela colocação após novo mini-concurso), eu regressava ao meu trabalho.
Nestas fotos, nós estamos, mais uma vez, a celebrar o São Martinho. Para mim, foi a última vez, dado que a minha colocação seguinte ocorreu uns dias depois e a partir de então entrei em licença ilimitada por mais de um ano até que pedi a exoneração.

Na foto da esquerda, estão duas colegas com quem ainda, até hoje, mantenho contacto ( a Aida e a Mariazinha) mas na foto da direita, em que me encontro, todos os contactos se romperam e, infelizmente, duas das colegas ( a Irene e a Ascensão) já nem se encontram entre nós.
Voltando ao São Martinho.
Não havia ano em que não festejássemos a preceito, ou seja, nessa tarde, o trabalho ficava para mais tarde, atendendo-se ao estritamente urgente - leia-se, suporte ao atendimento do público, que não podia parar. As chefias, em alguns sectores, fechavam os olhos a esta comemoração, mas noutros aderiam abertamente aos festejos, que se traduziam nos comes e bebes (às vezes mais nos bebes) e com as castanhas como rainhas da festa. De alto a baixo, no edifício, não havia sala em que não cheirasse fortemente à erva doce das castanhas cozidas ou ao inconfundível cheiro das castanhas assadas e ao chouriço e frango assados, que eram alguns dos petiscos mais apreciados e cozinhados ali mesmo, nos vários recantos que existiam, onde se montavam os assadores, grelhadores ou pequenos fogões e dispunham os tachos e panelas, tudo materiais que se traziam de casa, bem como as frutas, ou os doces, os bolos e outros mimos que se faziam para a ocasião e era suposto obterem a apreciação e aprovação dos colegas. Assim, as fotos mostram duas das salas em que estava instalada a secção a que eu pertencia, transformadas em "cantina", com toda a gente em convívio bem disposto. Lembro-me bem como alguns colegas (eles e elas) ficavam até alegres para além da conta e se viam depois aflitos para se recompor e chegar a casa em condições. Não me refiro só aos colegas da secção mas a todos os outros que trabalhavam na Instituição e tinham estado envolvidos em idêntico festim.
É verdade que celebrei muitos outros dias de São Martinho nos vários locais onde trabalhei depois, desde as Escolas a outros organismos do Ministério da Educação. Os petiscos eram praticamente os mesmos, embora fossem mudando os rituais, ou seja, tudo passou a comprar-se já pronto, quando muito, cada um encarregava-se de levar um doce ou bolo, mas até isso passou a ser comprado na hora e não feito em casa, com brio, para ser exibido e apreciado.
Não sei se por tudo ter mudado, se por uma questão nostálgica de tempos idos, de juventude que já se foi, o facto é que é unicamente desses São Martinhos antigos que retenho memórias, tanto das pessoas como do espaço onde tudo se passava e que ainda consigo visualizar.

sábado, 22 de maio de 2010

Finalistas 65/66

Finalistas de 65/66


Ano Lectivo de 1965/1966

O meu Livro de Finalistas da Escola Industrial e Comercial da Guarda




Foto: dos alunos finalistas do Curso Geral do Comércio (que era o meu)



Outros cursos de que igualmente se encontram retratados, no Livro, os finalistas: De Aperfeiçoamento do Comércio, Industrial, e de Formação Feminina.

Tenho ainda bem presente esse ano lectivo e a razão deve-se ao facto de o mesmo me ter corrido de feição, tanto do ponto de vista escolar como pessoal. Senti-me, nesse ano, muito mais confiante nas minhas capacidades, nas minhas decisões, nos meus relacionamentos com os colegas e professores. Recordo-me que os dias dos exames foram uma perfeita loucura, principalmente no que tocou às provas orais. Fazia-se uma, sempre debaixo de enorme nervosismo perante um júri austero e uma larga assistência dos outros alunos e, mal terminava, já estavamos a ser chamados para outra, na sala ao lado. Como já disse, tudo me correu bem, fiquei até dispensada de algumas orais devido a boas notas obtidas nas provas escritas. Mas (há sempre um mas...), ainda apanhei um susto com a oral de uma das disciplinas, aquela que nunca seria suposto assustar alguém: Economia Doméstica! Tentarei resumir a história: não havia dispensas de prova oral nesta disciplina, fosse qual fosse a nota obtida na prova escrita. Então, no dia da prova oral, encontrava-me na sala a assistir às provas das colegas e a aguardar a minha vez. A certa altura, tendo-me assegurado de que, antes de mim, ainda seriam chamadas umas três, saí rapidamente para ir à casa de banho. Entrei ainda não tinham sequer decorrido cinco minutos mas já a ouvir o final do meu nome. Aturdida, fui directamente para a secretária de examinanda e, para meu desgosto e atrapalhação, o exame começou com uma reprimenda da professora por me ter ausentado. Nem valia a pena justificar-me, ela não aceitaria qualquer justificação. A partir daí, tudo o que ela me perguntou sobre a matéria (que incidiu exclusivamente em culinária), varrera-se completamente da minha cabeça. Quis por força que eu explicasse como se faziam os "peixinhos da horta" e a mim pareceu-me que era a primeira vez que ouvia falar em tal coisa, embora, em casa, fosse um prato que se cozinhava com alguma frequência. Valeu-me então uma outra professora do júri (que infelizmente nos deixou cedo, mas essa é outra história que talvez um dia conte) que, vendo-me tão aflita e quase à beira das lágrimas, pediu à colega que mudasse de tema e me questionasse sobre outro assunto. Assim foi, consegui acalmar-me um pouco e lá respondi mais ou menos, mas valeu-me uma nota de 10, a única!
Com o Curso terminado, a passagem pela Escola Técnica já estava praticamente a fazer parte do meu passado. Ou assim eu o imaginava, mas estava enganada. De facto, grande parte dos meus colegas iria ainda frequentar, no ano lectivo seguinte, a Secção Preparatória Comercial, a fim de poderem prosseguir depois os seus estudos, no Instituto Comercial em Lisboa ou no Porto. Não era isso que eu queria para mim, ou seja, desejava sim um dia voltar aos estudos, quem sabe ingressar numa Universidade, mas nunca no Instituto Comercial, para o qual não me sentia minimamente vocacionada. Além do mais as disciplinas que me esperavam na Secção, apesar de serem só três, Português, Físico-Química e Matemática já eram, especialmente as duas últimas, pesadelo suficiente para me fazer querer ficar longe. O que eu queria mesmo, naquela altura, era conseguir um emprego, de preferência em Lisboa.
Os meus familiares, os meus colegas e amigos, não entendiam esta minha atitude e bastante argumentaram para me convencer a matricular-me na Secção Preparatória: - depois logo se veria - diziam - eu era nova, tinha muito tempo à minha frente, o emprego podia esperar mais um ano. Eu porém estava firme na minha decisão, pensava que nada me faria alterá-la mas, mais uma vez, estava enganada; bastou que uma certa pessoa, que nem era familiar, nem colega de escola, nem sequer amigo, me olhasse nos olhos e me dissesse mais ou menos isto e sem dar hipótese a qualquer argumentação: - claro que se vai matricular na Secção Preparatória, cá estamos para ajudar no que for preciso.
E foi assim que, no último dia do prazo e para grande surpresa e alegria das minhas colegas e amigas, me fui matricular na Secção Preparatória Comercial e voltei, com elas, à Escola Técnica. Foi um ano lectivo difícil, muitas vezes me lamentei por me ter deixado convencer, mas se não tenho concluído essa Secção, encontraria depois algumas portas fechadas para mim, e a minha vida profissional não teria tido o rumo que teve, que era, afinal, o que eu queria que tivesse.
Mas voltando ao livro, o seu conteúdo é composto de 3 grandes fotos de grupo, ou seja, dos estudantes de cada Curso, de algumas páginas dedicadas aos patrocinadores e as restantes são páginas de versos, uma por cada finalista. Esses versos, muito simples e a puxar à rima fácil ou forçada, resumiam o que, familiares, colegas e amigos, sentiam e desejavam para o futuro de cada jovem, findo aquele ciclo de vida académica.
No meu caso, foi a minha mãe e uma colega, a Conceição, que me preencheram a página com quadras desse mesmo teor.

Este livrinho andou desaparecido durante anos a fio. No entanto, mudara-se comigo de localidade para localidade, de casa para casa e, por fim, para aqui ficou arrumadinho, em sítio de que me esqueci. Quando, por mero acaso, dei com ele há uma meia dúzia de anos, quase tive um choque. Ali estava eu junto dos meus colegas, com a minha bata branca e com um meio sorriso para a foto. Aliás as expressões e postura de todos nós são muito idênticas: sorrisos q.b., as batas brancas que sei estarem impecáveis, braços ao longo do corpo, muito direitas e bem alinhadas na escadaria. Falo das raparigas, porque os rapazes estão lá para trás, como não podia deixar de ser, e todos engravatados porque assim é que era. Parecemos fazer parte de um coro!
Posiciono-me no grupinho da frente e, logo atrás de mim, está a minha prima Amélia e atrás dela a minha amiga Mª José, a única com quem até hoje ainda mantenho contacto, embora com algumas interrupções pelo meio, ao longo destes mais de quarenta anos.
Olho e volto a olhar e não consigo lembrar-me, em muitos casos, de quem é quem. Nas raparigas, ainda consigo identificar, entre as vinte e sete, talvez umas vinte, mas nos rapazes, nem um. Lembro-me dos nomes (eles estão no livro) mas não consigo fazer-lhes corresponder as caras. Isso incomoda-me, inquieta-me.
Estou tão senil assim?
Que será feito de cada um destes meus colegas? E das minhas mais que colegas, amigas? Que terão feito da vida?
Será que alguns se têm cruzado comigo por aí e não nos reconhecemos?
Bem, as interrogações não acabariam, mas ponto final.
Quem me responderia?!
Ah!
Se alguém que me conheça algum dia ler isto, sou capaz de apostar que terá ficado a pensar em quem terá sido a tal pessoa que me fez repensar uma decisão. Como escrevi, essa pessoa não era nada meu mas, paradoxalmente, tinha um ascendente bastante forte sobre mim. É mais uma das minhas histórias de vida, não sei se alguma vez a contarei...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Reinalda / Torreão

Reinalda /Torreão


Finalmente as fotos que pretendia colocar aqui!


Eu poderia ser, não a Nini da canção mas a Lili dos 15 anos... acompanhada de outras moças a rondar pela mesma idade, e de um senhor já de cabelos brancos.
Refiro-me a mim como Lili porque, já na minha idade bem adulta, houve quem passasse a chamar-se assim, coisa que dura até hoje.
Mas voltando à época da minha juventude e às minhas recordações, começo por localizar o cenário da foto: um terreno baldio, bem próximo da minha casa, na Guarda, a que chamávamos Reinalda. Nunca cheguei a saber se este era o nome verdadeio desse baldio, mas o terreno que lhe dava contiguidade, o Torreão, esse sim, ainda hoje, o que resta dele, tem essa designação, bem como o arruamento próximo.

Tenho muito boas lembranças deste sítio, refiro-me principalmente à Reinalda, pela maior proximidade. Na Primavera, quando as florinhas e as espigas campestres despontavam por todo o lado e as árvores se enchiam de rebentos e folhas, a paisagem que se avistava lá de cima da varanda ou das janelas, era um regalo para a vista. Mais ao longe, ainda se avistavam, um fio de água do ribeirito que corria e onde algumas mulheres ainda iam lavar a roupa, e uns cortelhos feitos de tábuas desengoçadas, onde alguns porcos aguardavam pelas viandas diárias que outras mulheres transportavam à cabeça, em baldes de zinco, assentes nas rodilhas feitas de trapos (panos velhos). As viandas, além de cargas pesadas, eram nojentas, uma vez que consistiam nas sobras alimentares recolhidas em cada casa por essas mulheres (as donas dos porcos), que assim os alimentavam, sem mais despesas. Tudo o que fosse desperdícios de comida, ia para o balde de zinco que se escondia debaixo do lava-louça e que, logo que enchesse, seria recolhido por uma dessas mulheres, normalmente pessoa conhecida, vizinha.

Mas era no Verão que a Reinalda representava para nós, a garotada (era mesmo assim que nos tratavam e consideravam, mesmo que já entrados na adolescência) o maior atractivo. O terreno tinha um declive acentuado que, coberto de relva, dava para rebolarmos por ali abaixo numa explosão de gritaria a expressar todo o gozo que aquela liberdade nos dava. Tardes inteiras a correr por ali acima e a rebolar por ali abaixo. Mas havia outras brincadeiras: apanhar grilos com uma palhinha que se enfiava nos buraquitos meio escondidos nos tufos de relva, fazer ramos de espigas, papoilas e outras floritas selvagens, ir um pouco mais além do ribeirito para apanhar azedas ou mostajos de umas árvores que por ali havia sem dono. Numas quintas que existiam mais à frente, havia também groselheiras e cerejeiras e, quantas vezes, porque conhecíamos os donos, vínhamos para casa carregados de pernadas de groselha e de cerejas.

À época da foto, eu já não era porém a miúda que rebolava na relva. Isso aconteceu até aos meus treze anos, em que também jogava ao queima e à macaca na rua e participava em corridas.

Aos quinze anos, eu já era outra pessoa. A casa e a escola eram o meu mundo e a Reinalda deixou de ser o local de brincadeira para ser um local de passeio ao domingo ou de estudo; tinha bons recantos para nos sentarmos numa pedra, de livros e cadernos na mão, se o tempo estivesse ameno. Naquele ano, o meu tio e padrinho viera de Brasil para nos visitar. Há anos radicado em São Paulo, só tinha voltado a Portugal, pela primeira vez, na altura do meu nascimento. Esta era, portanto, a segunda visita, estávamos em 1965.

Naquela altura, a chegada de um parente emigrado no Brasil ou na América, mexia com as rotinas das famílias. Tudo passava a girar em torno desse parente, enquanto por cá permanecesse. Organizavam-se passeios pelos arredores, viagens a Fátima, pic-nics à beira do Mondego e reunia-se a família para convívios e festins na casa onde estivesse instalado o emigrante. No nosso caso, isso acontecia em casa da minha avó materna.

É por isso que o meu padrinho aparece na foto, ou seja, tornado figura central da família, ele marcava presença nas nossas actividades diárias. Então, nesses dias de estudo ao ar livre, em vésperas de final de ano lectivo, com exames à porta, o meu padrinho aparecia, conversava um bocado e, por sua iniciativa, registou-se aquele momento graças ao aluguer de uma máquina fotográfica num dos fotógrafos da cidade. Não foi a única foto, existem outras do mesmo dia e de outros dias, como esta aqui à direita. As diferenças são várias: nesta, o cenário passou a ser o Parque, as nossas queridas batas escolares ficaram em casa e está presente o meu irmão.

As amigas que estão comigo na foto, viviam na minha casa na qualidade de hóspedes-estudantes. Era prática da altura as famílias receberem, como hóspedes, os jovens das aldeias que, após concluída a 4.ª classe e feito com êxito o exame de admissão, vinham continuar os estudos no Liceu ou na Escola Técnica, principais estabelecimentos de ensino na cidade. Esses jovens, uma vez instalados numa casa de família, passavam a fazer parte dela, sendo como tal tratados e acarinhados. Seguindo essa prática, os meus pais também acolheram alguns desses jovens, pelos quais se tornaram responsáveis, tal como por mim e pelo meu irmão, que igualmente estudávamos nos referidos estabelecimentos de ensino.

O tempo passou, tudo mudou, não resta mais nada do que era o nosso viver diário.

À excepção de uma delas, as amigas da foto, bem como outros jovens que, na mesma época, partilharam comigo tecto, alegrias e tristezas, dispersaram-se e os contactos romperam-se.

Restaram algumas fotos e, por enquanto, as recordações.